Sunday, 20 June 2010

Hoje é Domingo..

Como hoje é o dia do Senhor, vou esforçar-me e tentar escrever na língua de Saramago, entre outros.
No meu caso particular, é uma das melhores formas de o homenagear, embora não escreva lá muito bem, por este motivo peço a vossa indulgência, e a dele...

Calha bem escrever hoje em Português, mesmo que seja com dificuldade acrescida, porque o que tenho para dizer é algo que desejo ser lido apenas por gente lusófona, e/ou por gente que tenha sentido o suficiente respeito e interesse (quiçá carinho) por esta língua para a aprender.

Há dias (Sexta passada) por qualquer motivo acordei com algum, não sei como dizer... como uma necessidade de silêncio, ou melhor, um apelo ao Silêncio. Mal sabia que estava prestes a desaparecer quem nos deu Baltasar Sete Sois e Blimunda, e que nesse mesmo trabalho fez regressar à vida o padre Bartolomeu Lourenço.. (o padre voador).

Ao longo deste fim de semana, apesar de ser preenchido com muita tarefa, não pude deixar de constatar, com bastante tristeza, a contínua cegueira e pobreza de espírito de alguns conterrâneos. A (des)informação, tal como a má formação, cansa.
Críticar, para além de ser útil e necessário, é uma tarefa que requer fundamento a meu ver. Ao ser-se tendencioso e/ou mal informado, em nada acresce ao conhecimento, nem ao bem estar dos outros, antes pelo o contrário, só faz aumentar a boçalidade e a dita santa ignorância.

Como é óbvio, compreendo perfeitamente que se possa não gostar de este ou aquele autor, como pessoa e/ou da sua obra. Conheço quem não goste de Steinbeck, Kafka, Camus ou Orwell, também ouvi outros a dizerem que não gostavam de Camões, Shakespeare, ou de Herman Hesse..
Até já ouvi gente a pronunciar não gostar de Pessoa (nenhum dos que ele era... feito notável dizer conhecer todos os "Pessoa" e mesmo assim afirmar tal coisa).
Enfim, tal como muitos de vós, já ouvi muita coisa.

Mas, ao ser afirmado não se compreender, ou aceitar, que outros gostem deste ou aquele autor, sobretudo por parte de quem nunca tenha lido algo escrito, pintado, composto, etc. pelo mesmo,
(independente dessa opinião ir ao encontro dos meus gostos pessoais ou não)
é que começa o problema, e começo a ficar com uma certa urticária.
Se tanto Português (milhões, parece-me que é algo assim)
se exilou, ou emigrou, qual é o problema... e em quê é que isso diminui uma pessoa, e/ou a sua obra, pergunto? É de bradar aos céus!!

Eu quando não gosto de alguém, e se passa algo mais sério (do género "Morte"), tento ter o suficiente bom senso de dizer... nada (faço silêncio), pelo menos nesses dias mais próximos. É uma questão de respeito pelos outros, coisa que se esquece com demasiada facilidade, e leviandade.

Deixo aqui uma citação e o respectivo link onde podem ler na integra o artigo onde este mesmo está inserido (e que desminta isto o Sr. Presidente da República se puder):
"Quando, em 1991, lançou para as livrarias o seu Cristo humanizado de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, Saramago esperaria certamente a contestação dos sectores católicos da sociedade portuguesa. Não esperaria o aconteceu para além disso. O veto oficial do romance ao Prémio Literário Europeu, pela voz do então Sub-secretário de Estado da Cultura Sousa Lara, do governo liderado por Cavaco Silva, precipitou a sua saída de Portugal. Em 1993, auto-exilou-se na ilha de Lanzarote, nas Canárias, com Pilar del Rio, a jornalista espanhola com quem casara em 1988."

in - http://www.publico.pt/Cultura/morreu-jose-saramago_1442478

Tal como ocorreu com este episódio anterior, nessa mesma altura recordo-me perfeitamente de outro enorme vulto, ter sido boicotado por todos nós, através do então secretário de estado da cultura (não havendo na altura ainda um ministério), e ao sê-lo, todos nós o fomos simultâneamente. Refiro-me a um igualmente ignóbil episódio que se passou com Jorge Peixinho, que alegremente recebeu a informação (da Bélgica) que queriam abrir a Europália com um concerto inaugural, com a sua obra
(J. Peixinho referiu na altura que tinha de facto escrito um 'Concerto Grosso para Amulador e Orquestra') Este, mais tarde veio a saber que terá sofrido um tratamento semelhante por parte do nosso governo. Engraçado isto... não precisamos que sejam outros a ignorar a nossa existência, ou nos desprezarem, pois é um trabalho que fazemos com zelo e perícia.

Pelos vistos só temos capacidade de exportar de forma eficaz Toni Carreira.. e coisas, perdão gente do genro.

Agora irei repetir o que escrevi a um amigo, e um belíssmo autor também ele, igualmente há dias :
"e repito o que disse anteriormente...
- sempre me pareceu que os nossos países, que são da dita periferia em relação aos que que se tem falado, do centro (com a sua com a sua respectiva hegemonia cultural) era a de entreter, dar cor.. e mostrar que esses, os do dito centro, são muito bons.. ao inclusive poderem mostrar erudição ao afirmar nos conhecem as "cores"
Para se poder dizer, como o faziam no virar do século XIX para XX na antropologia evolucionista - olha conheço aqueles especimens católico-periférico-europeus...

Sei que não se deve especificar, porque poderia ser apenas um exemplo não habitual, uma excepção, contudo segue o dito exemplo de um professor de Harmonia & Contraponto, numa instituição Universitária típica Norte Americana, que não só ostentava uma erudição fora do comum, na ideia de todos (e tendo em conta os factos de que se tem aqui falado, vejo que sim.. )
que queria ler os Lusíadas (que por si só era tido como ousado, pois é um autor "exotico" e desconhecido - "obscure"), e mais impactante era esta sua vontade, por a querer fazer na sua língua original tal como se faz com qualquer obra da antiguidade... (verificava-se na altura, que apesar de não conhecer a língua, tinha vários dicionários... ufff!!!)

Recordo-me de ter retorquido, visto tratar-se mais da área deste senhor (e já que estava interessado em Portugal) se conhecia a obra de um compositor que muito presava... e que, muito ao encontro do meu gosto pessoal, tinha uma sonoridade bastante 'internacional' (perdão, mas não me ocorre outro termo de momento)
e que muito me tocava. A reposta podem advinhar.. :/

Aliás o senhor, por muito boa vontade que tivesse, não conhecia, nem me parecia que tivesse hipótese de conhecer, J. Braga Santos, nem nenhum outro compositor luso..

Como já estava habituada a este fenómeno, o da inexistência cultural, desde tenra idade, desliguei-me do assunto com um "olhe, tenho aqui a obra de Camões que me pediu".. :/

Claro que ele conhecia a Amália..

Mulher que vivia na mesma rua onde tinha vivido outro compositor de grande relevo.., mas não é a rua do Jorge, é a rua da Amália, um desapareceu em 95, e outro em 99.. quem está no Panteão Nacional?
Enfim, o que de facto parece-me importante, é a pessoa, e claro, a sua obra como compostitor, pedagogo, e divulgador de obras de outros, entre muitas outras coisas.

Digo mais, a realidade, distorcida, pobre e ... (não quero dizer mais) transmitida inclusive pela maioria dos nossos compatriotas, pelo menos até a década de 90, encaixa que nem uma luva aos ditos propósitos da referida medida do plano Marshall.


Claro que a homenagem em vida sabe sempre melhor e por isso não quero deixar de referir que, Saramago fez com que me apaixonasse pela língua Portuguesa
(com Eça entre outros já estava quase), uma língua que, e quis o destino que assim que fosse, nunca tive a oportunidade de aprender. Nunca uma aula deste idioma tive.

A minha pátria é a língua portuguesa - já dizia o grande, enorme, multi-persona
Fernando Pessoa

Saramago neste sentido é um dos maiores responsáveis por devolver-me a minha pátria, e fazer com que ela crescesse, coisa que ela, a pátria, muito necessita na minha opinião. A ele vai o meu profundo agradecimento.

Desta vez, em memória de quem muito melhor que eu escrevia, apenas ponho texto, nada de imagens ou músicas, apenas palavras (coisa que para mim não é nada, mas mesmo nada fácil fazer)

4 comments:

  1. Ah! Eis que ligo a televisão.. e pim!!
    Grande, enorme Saramago, que até mesmo na sua morte coloca o actual Presidente da República perante a sua pequenez, e insignificancia, e igualmente a sua capacidade de exercer o cargo que todos os portugeses lhe imputaram...,
    brilhante, o homem que até ao deixar-nos, nos mostra o que temos em CASA...

    Mas pergunto, em algum outro país aconteceria isto??

    Cavaco Silva - o professor não tinha forma de sair disto airosamente mas, entre ser hipócrita e faltar ao emprego, teria sido preferível não fatlar ao trabalho... olhe o desemprego e a facilidade em despedir nos dias de hoje, olhe as faltas não justificadas...

    (Coitado!! Nunca teve, nem terá a capacidade de almejar, ou alcançar, o que é ser o Nosso presidente, com a grandeza, e/ou o sofrimento que tudo isso implica. Mas como Saramago é do mundo, e um autor universal, como ele é de um tamanho muito, mas muito maior, de dimensão verdadeiramente notável... fica apenas a ironia de um estrondoso chumbar de um professor, que nunca tinha sequer uma hipótese melhor do que alcançar neste momento um "Satisfaz Menos" ... boa continuação de férias Sr. Presidente)

    Just Retribution

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  2. e mais...
    Cavaco Silva - eu vos chumbo, Senhor, eu vos chumbo!!

    Nunca gostei de lhe chamar de Pres... agora nunca mais o farei porque faltou ao emprego, falta não justificada!!!!!
    Não tem, como de resto já calculava, dimensão para me representar, nem nenhum dos meus conterrâneos.

    Ao Vaticano... desmancho-me a rir perante o vosso discurso, já nem consigo pedir, como há bocado, o dito e abençoado SILÊNCIO.
    Vós sois hilariantes... Deveis pois progredir!!
    Só o Vaticano para me por a rir assim..

    http://economico.sapo.pt/noticias/vaticano-define-saramago-como-populista-e-extremista_92477.html

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  3. Há ocasiões, A.M., que as miudezas próprias de gente miúda as quais, mesmo que irreparáveis, a grandeza de outras não de permite reparar.

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  4. é verdade A.C.,
    e perante tal, fico sem palavras...
    (muito agradecida)

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